NORMOSE – SERÁ QUE SOMOS NORMAIS?

Alguém às vezes já se pegou perguntando se é mesmo normal? Se o mundo é normal? Afinal, o que é ser normal? É seguir todas as regras? Fazer tudo que se espera de nós? Por mais que essa pergunta pareça uma dúvida sem sentido, descobri , ao ler uma matéria sobre a “doença de ser normal”, que a pergunta não é tão sem propósito. E esse mal leva o nome de Normose, uma obsessão doentia por ser normal. Às vezes a normalidade nos assombra quando a olhamos de uma certa distância.

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A Normose é definida como um conceito de filosofia para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústias e podem ser fatais. Em outras palavras “comportamentos normais de uma sociedade, que causam sofrimento e morte”. Dessa forma os indivíduos que estão em perfeito acordo com a normalidade e fazem aquilo que é socialmente esperado acabam sofrendo, ficando doentes ou morrendo por conta das normoses.

O conceito surgiu com o encontro do psicólogo e antropólogo brasileiro Roberto Crema, do filósofo, psicólogo e teólogo francês Jean-Ives Leloup, e também de outro psicólogo francês, , na década de 1980. Do encontro dos três nasceu uma parceria e o livro Normose: A Patologia da Normalidade.

Em outros tempos era normal escravizar os inimigo vencidos na guerra ou comercializar abertamente escravos por causa de sua cor ou etnia. Era normal perseguir e eliminar povos inteiros por causa da sua religião ou raça. Era normal queimar pessoas na fogueira por bruxaria, como já foi normal pessoas lutarem até a morte para entreter a multidão. Algumas dessas “normalidades” parecem persistir ou estarem retornando. As guerras continuam sendo justificáveis.

Hoje nos parece perfeitamente normal trabalhar 40 horas semanais fazendo algo que se detesta, para gastar o que não podemos, para comprar o que não precisamos. É normal não ter tempo para nada, sacanear o colega do lado, o motorista do lado, mentir para ganhar dinheiro, pagar e receber por todo tipo de facilidades e favores, devastar florestas e destruir o planeta em nome do progresso. Também é normal se exibir e virar celebridade do dia para a noite, como é normal nossa curiosidade mórbida por esses exibicionistas.

Existem normalidades que até fazem bem ao indivíduo, e as que não fazem nem bem nem mal. E há aquelas patológicas, levando o indivíduo a agir sempre de acordo com o consenso social, sem parar para pensar ou questionar, levando à infelicidade e a perda de sentido na vida.

Nos anos 1970, Raul Seixas já falava dessa normalidade às avessas na música Ouro de Tolo:

“Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês…”

Em uma foto famosa que circulou pela internet e se tornou viral – ainda bem que nem só frivolidades se tornam virais – tirada em 1936 em plena Alemanha Nazista, mostra um cidadão alemão chamado August Landmesser, operário do estaleiro de Hamburgo, no meio de dezenas de pessoas saudando o Terceiro Reich, enquanto ele se mantém de braços cruzados. Mais tarde ele foi expulso do Partido Nazista e preso por desonrar a raça ariana. Essa história só veio a público, depois que uma de suas filhas, Irene, identificou o pai na foto, e em 1996 a história da família Landmesser foi publicada por ela no livro “Irene Eckler: Uma Família Separada pela Vergonha Racial”. Naquele momento na Alemanha, todos que saudavam o regime eram “normais” e Landmesser não fêz o que deveria.
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Os comportamentos tidos como normais são aqueles que assim nos parecem pela repetição, tornam-se hábitos porque agora todo mundo está fazendo, ou porque sempre foi assim, ou ainda porque é a “coisa certa” à fazer. É como se fosse uma espécie de “osmose” social, se compararmos a um conhecido processo físico químico.

Em um artigo na revista Super Interessante, o carioca Eduardo Marinho, hoje com 50 anos diz que percebeu cedo que não queria ser como os outros. Filho de militar, abriu mão de sua condição financeira e de sua faculdade ao se dar conta, aos 18 anos, que não queria olhar para sua vida quando velho e pensar que não tinha feito nada relevante. “Não queria ser bem-sucedido e me sentir fracassado”. Eduardo saiu pelo país pedindo abrigo e comida em troca de favores e buscando algo que o preenchesse. Depois de passar por poucas e não tão boas pelo Brasil, deu voz a sua vocação. Hoje é artista plástico.

Ele acredita que a desnormotização se inicia dentro de cada um: “Que tal olhar para dentro de si mesmo? É aí que começa a revolução”, sugere. Claro que, para isso, não é mandatório dormir nas ruas. Fazer o trajeto que Eduardo escolheu para si pode ser perigoso e não há nenhuma garantia de sucesso.
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Temos uma espécie de medo da liberdade, e a trocamos pela proteção, pela segurança, pela aceitação. Segundo o psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Nobel de Economia de 2002, em seu livro Rápido e Devagar: Duas formas de pensar, nosso cérebro confunde o que é familiar com o que é correto. Ao despertar alguma memória o cérebro define o “familiar”, como “correto”, da mesma forma que o novo é entendido como passível de desconfiança, porque coloca em risco nossa “zona de conforto”.

Quem sabe já se tornou normal ser normótico, mas para o bem da criatividade e da capacidade de dizer “basta, não concordo”, talvez seja melhor desconfiarmos de algumas coisas normais.

“Não existe nada tão mau, selvagem e cruel, na natureza, quanto os homens normais.” Herman Hesse

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FILE 2013

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Em cartaz no Centro Cultural Fiesp, o FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica apresenta 23 obras de arte digital com entrada gratuita até 1º de setembro. Famoso por suas longas filas nos fins de semana, o evento tem um público cativo que o procura principalmente pela possibilidade de interagir de diversas maneiras com instalações, animações, aplicativos para tablet e games, entre outros trabalhos. Em sua 14ª edição, em 2012, o festival recebeu 50 mil pessoas. Para evitar o tumulto, a dica é fazer a visitar durante a semana ou aos sábados e domingos, pela manhã.

É importante reservar de 2 a 3 horas para conhecer todos os trabalhos em exibição neste ano. Não há um roteiro a seguir. No salão, vale ficar livre e experimentar as mais diferentes sensações que as peças podem despertar, sem pressa. O estudante de moda Wladimir Rocha, que estava na abertura, no último dia 22, levou a sério essa proposta. “É bacana usar a tecnologia a favor da arte de uma forma interativa”, disse.

Escorregadores urbanos, já!

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Aproveitando o clima de protesto, poderíamos incluir essa na nossa pauta para agilizar o cotidiano. Certamente não agradaria a todos, mas que é divertido e permite acelerar um pouco o nosso dia-a-dia, disso não há dúvidas. Em várias cidades do mundo, têm sido construídos escorregadores urbanos ao lado de escadas – assim uma tarefa normal do cotidiano vira rapidamente um momento divertido.

Em Utrecht, na Holanda, o escorregador é grande atração em uma estação de trem. Já em Berlim, Alemanha, foi no metrô que ele apareceu e a verdade é que, além do momento lúdico, o escorregador permite melhorar o fluxo dos passageiros.

Assista ao vídeo na estação de metrô da capital alemã: impossível não amar a ideia.

Espelho, espelho meu: A Condessa de Castiglione

A Condessa de Castiglione foi uma criatura rara: além de bela e inteligente, era uma narcisista com acesso ilimitado a uma câmara. Entre 1856 e 1895, ela já tinha uma coleção de mais de 400 fotografias de si mesma.

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Que boa parte dos seres humanos é narcisista, não há dúvida. E há quem adore colecionar centenas de fotografias de si mesmo durante a vida. Mas em pleno século 19 isso não era considerado tão comum assim.

Virginia Oldoini nasceu de uma família nobre de Florença em 1837. Aos 17 (já possuindo um caráter inquieto e imaginativo), entrou em um casamento arranjado e sem amor com o Conde di Castiglione, simplesmente por interesse financeiro. Além de levar o marido à falência com suas extravagâncias, ela o traia descaradamente. Os dois se separaram em 1857 e a condessa passou a maior parte do resto de sua vida com seu filho, Giorgio, e seduzindo os homens mais importantes de Paris.

Fascinada pela própria beleza, a condessa tentava capturar suas facetas e recriá-las através da fotografia. Em julho de 1856 visitou o estúdio de Mayer Pierson, um dos maiores estúdios fotográficos do Segundo Império. Ela e Pierre-Louis Pierson criaram mais de 400 retratos concentrados em três períodos distintos: sua entrada triunfal na sociedade francesa; sua reentrada na vida parisiense e o final de sua vida. Ela criou identidades alternativas para si mesma.

Foi ela quem assumiu o papel de diretora de arte, até mesmo ao ponto de escolher o ângulo da câmara. Ela também deu indicações precisas sobre o alargamento e redesenho de suas imagens, a fim de transformar os documentos fotográficos em pinturas imaginárias. Seus retratos estão entre os mais belos do gênero. Registram a condessa com seus vestidos extravagantes e figurinos de saraus e bailes de máscaras, com vestes que usava em teatros, óperas ou de sua própria imaginação. Sua vaidade era tão famosa quanto sua beleza. Ela não gostava de conversar com outras mulheres e enviava seus retratos apenas aos amantes e admiradores.

William Baglione, cuidando da criatividade e amando a cidade.

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Em meio aos conjuntos de prédios e construções famosas das capitais, seus olhos atentos estão sempre em busca do inusitado. Para apreciar um lampejo de arte, basta querer entender como a arte urbana se manifesta em meio à grande complexidade cidade e como ela pode ser representada de inúmeras formas, cada uma com aspectos diferenciados, bem como a história por trás delas.

Diga-se de passagem, os olhos muito atentos do curador de arte contemporânea William Baglione, sempre estiveram envolvidos com a produção de conteúdos criativos. Trabalhando desde 1994  na administração da carreira de seu irmão, o artista plástico Herbert Baglione,  o idealizador e fundador da Famiglia Baglione, faz um adendo a questão: Segundo sua visão, a cidade encontra-se empobrecida de criações artísticas, e para ele ainda existe uma  infinidade de laterais de prédios mal aproveitadas que poderiam  se transformar em painéis gigantes e outdoors,  que pela lei poluem visualmente, mas por outro ponto de vista priva de cores e alegorias que dão vida à cidade.

Sempre fora evidente que William era um artista, que absorvia as informações e possuía um olhar peculiar sobre o assunto, foi notada então a oportunidade de gerenciar a parte burocrática do trabalho e administrar a carreira de outros artistas, William chamou o irmão e o artista plástico Nunca para fundar o que foi um dos conjuntos de artistas mais renomados do Brasil.

A Familgia podia ser considerada uma máfia em termos de administração e estrutura, William Baglione afirma que apreciava muito os encontros pessoais e a boa comida, que sempre esteve presente nos encontros. A ligação entre os membros transcendia a relação profissional,  ligação essa que vinha antes da arte. William sempre foi engajado ao trabalho do irmão de forma complementar, e nesses trabalhos o compartilhamento de ideias era fundamental. Mostrou excelência na produção e execução de projetos,  de forma pioneira na exposição da arte brasileira pelo mundo, durante 7 anos, gerando conteúdo artístico e alavancando a carreira de alguns dos nomes mais importantes da arte urbana brasileira. Baseando-se na experiência adquirida ao longo desses projetos surgiu um novo ideal.

Neste cenário de constante transformação e efemeridade, é necessário inserir o visual, escancarar à vista para todos os olhos atentos e também para os desatentos. Willian fez isso diversas vezes com maestria, levando a arte do Brasil mundo a fora

Em busca de atrelar arte a uma concepção ainda mais profunda, ergue-se a Society Under Construction. Aprimorando o desenvolvimento de trabalhos como workshops,  outdoors, exposições institucionais, cursos e  curadoria de arte. Estes projetos têm objetivos criativos e sociais e mostram como a  arte é capaz de ativar a questão  social-cultural  e fomentar empreendimentos que são de grande importância para dar identidade da cidade, principalmente de uma mundialmente conhecida e com tantas influências culturais como a cidade de São Paulo e ainda agregam valor ao turismo e transformam os espaços em que são inseridos.

O trabalho de Willian consiste em quebrar paradigmas mostrar ao público a abrangência da arte urbana e como  pode ser inserida em qualquer meio, para ele só é necessário direciona-la. E acredite: de ambos os lados. Os artistas também precisam ser direcionados. Muitos deles esbanjam talento e são incapazes de direcionar a própria carreira . Diga -se de passagem, não é uma coisa nada fácil.

Dar foco a criatividade  e incentivar a luta de quem insiste em viver de arte é um trabalho para Hércules. Muitos espaços estão apenas à espera da intervenção de artistas que querem dar vida a suas obras e enriquecer o visual da cidade. Abram as portas. Deixem esse homem passar!

Uma Garota e o seu Gato

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Nascido em uma pequena cidade rural na Rússia em 1963, Andy Prokh é um economista, mas um fotógrafo nas horas vagas. Passou os últimos sete anos testando as suas habilidades com fotos, e achou o seu tema preferido para fotografar: a sua filha Catherine e o seu gato Lilu.

Na série intitulada “Uma Garota e o seu Gato”, ele tira fotos em PB mostrando a relação de amizade e carinho entre a sua filha e Lilu.

Barbie Kill

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Para Mariel Clayton tudo começou com uma câmera e um grande interesse em fotografias de viagem. Foi aí que surgiu o lampejo para a criação dessa  série de fotografias. Em um encontro com uma loja de brinquedos em Tókio, que a transportou para o mundo surreal das miniaturas japonesas e das histórias por trás delas. Desde que começou a trabalhar com fotos de bonecas, Mariel pôde a apreciar cada vez mais as possibilidades de como fotografá-las e como cada mudança de posição, gesto ou acessório pode transmitir um conceito cômico e ao mesmo tempo trágico nas fotos.

Esse projeto é inspirado num conceito “serial killer” e apresenta a Barbie psicopata, homicida, que mutila, desmembra suas vítimas, que são na sua maioria o boneco Ken ou outras Barbies. Mariel também criou uma série de fotos batizada como “Rooms”, que coloca a boneca e seus amigos em cenas cotidianas, em uma visão mais próxima da nossa realidade.


Escolheu trabalhar com Barbies porque as considera a imagem eternizada da mulher superficial e fútil, criada para ser uma dona de casa perfeita em seu mundo intocável. “O sorriso vazio pintado de batom e os olhos sem alma escondem o coração negro de uma verdadeira sociopata, assim como na vida real.” diz a fotógrafa.

Segundo a própria Mariel, a idéia não é transmitir nenhuma mensagem a partir dessas fotografias, mas apenas se divertir e compartilhar isso com outras pessoas.